Quantos nerds passaram por aqui?

quarta-feira, abril 05, 2017

Identificação não precisa ser chato

Lovely Complex

Um dos pontos fortes de muitas obras nipônicas é o desenvolvimento de personagens com os quais nos identificamos. Seja aquele inserido num contexto de slice of life, em que nada fora do comum acontece, ou que ganha super poderes, ou mesmo que nasceu com algo de sobrenatural, não importa: criar empatia é um ponto crucial para que possamos nos interessar pela história e torcer pelo personagem. Pelo menos, torna tudo mais gostoso.

O problema é quando se encontra personagens que fazem sucesso e se utilizam daquele arquétipo incessantemente. A menina explosiva, a tímida, o rapaz sedutor, o valentão, o inexpressivo, o frio... todos tem até mesmo nomenclaturas (tsundere, kundere, moe, entre outros, na web tem muito material explicando). A fórmula é tantas vezes repetida que se torna chato... eis que Lovely Complex, ou apenas "Lovecom" tem seus muito méritos!

Risa e Otani: alturas diferentes, personalidades parecidas


 O anime Lovely Complex, que foi o que eu assisti, é uma adaptação do mangá shoujo de mesmo nome, criado por Aya Nakahara e lançado em 2001. O anime saiu em 2007. Já rolou Dorama, CD drama e alguns rumores falam de uma continuação do mangá com enfoque noutros personagens. É comédia romântica, muito humor, um certo romance e  pequenos dramas (nada pesado). 

Risa & Otani: afinidades

A história é aparentemente simples e sem grande chamativo, talvez por isso eu tenha demorado quase dez anos para assistir tudo (Cah que tinha me indicado 2947775 vezes). Em um colégio de Ensino Médio estuda Koizumi Risa, uma garota que mede 1.70 e chama atenção por ser mais alta que todas as meninas e muitos dos meninos, e Atsushi Otani, que é um pouco mais baixo que o comum dos meninos, com seus 1.56. Por conta dos reforços escolares e eles passam a conviver, e de início brigam bastante pela personalidade enérgica e explosiva de ambos, em contraste com a altura, que faz com que chamem atenção de todos, sendo apelidados de All Hanshin Kyojin (dupla de comediantes japoneses com grande diferença de altura). Quando eles resolvem se ajudar na conquista (Otani é afim da pequena e delicada amiga de Risa, e Risa quer se aproximar do alto, belo e quieto recém-amigo de Otani) os dois vão desenvolvendo uma amizade muito forte, repleta de cumplicidade, humor e conflitos. Existem outros personagens como as amigas de Risa, o amigo de Otani, o professor, familiares e rivais.


Mangá de Lovely Complex


Obs: A partir daqui podem ter algumas revelações do enredo.


A primeira parte do anime mostra o desenrolar da relação de Risa e Otani. Eles são muito parecidos: tem problemas com sua altura, são obcecados pelo cantor Umibozu (algo que os une bastante), não são muito interessados na escola, são bastante divertidos, infantis e com personalidade expressiva. No começo, são vistos como os comediantes, mas a medida em que vão partilhando dos problemas, como o fato de Risa achar que nunca um homem vai gostar dela por ela ser muito alta, fica perceptível que dali pode nascer um romance. Embora se tratem como "dois caras", entre xingamentos, socos, pontapés e brincadeiras mais malucas, Otani tenta aumentar a auto-estima da amiga, mostrando-se muito preocupado e gentil com ela.


Os personagens conhecem Umibozu


Risa é a primeira a ver em Otani um par romântico. Após lutar bastante contra o sentimento - afinal, ela é "girafa" perto dele - ela admite a si mesma que o ama. Muito disso é despertado pela personagem Seiko Hotobuki, um garoto que se vê como "menina" (e que também nutre sentimentos por Otani) e que lhe convence que o empecilho da altura é muito pequeno. O anime, então, é levado a tentativa de Risa mostrar a Otani que eles são mais do que amigos. Como um personagem lerdo (recurso usado para atrasar a aproximação romântica, mas que por vezes chega a irritar), Otani demora muito para se convencer de que gosta de Risa como namorada.


Atsushi Otani em momento romântico

Talvez aí venha o ponto que mais me desagrada: Risa se esforça muito mais para conquistar Otani do que vice-e-versa. Embora eles tenham uma relação de amizade forte e companheirismo, ele só vence a barreira de vê-la como amiga-dupla cômica ao sentir ciúmes, tanto de Maity-sensei, e posteriormente se entrega na relação amoroso por causa do ciúme de Kohori. É um ponto forte do anime não explorar em demasia o ciúme masculino, possessivo,, algo comum em shoujos e em obras voltadas ao público feminino, romantizando a possessão vinda de um cara "maravilhoso". O ciúme de Otani não é algo perturbador, contudo senti falta dele sofrer um pouco mais, demonstrar um pouco mais todo o afeto que Risa persistiu em direcionar a ele.

Risa Koizumi, mocinha cheia de personalidade

Mas bem, vamos falar de coisa boa: o grande trunfo do anime, para mim, são esses dois personagens. Risa e Otani como dupla ou casal, tem muita química! Eles são escrachados (assim como o humor da história), mas nada que os torne menos humanos. Risa por si, é uma ótima protagonista:  naturalmente engraçada, expansiva, meio moleca e bruta, joga video games, mas é bem romântica e louca por coisas femininas. Já Otani é pequeno e aparentemente frágil/delicado, mas na verdade é bem esquentado e determinado, tanto que é um ótimo jogador de basquete. Você acredita na amizade deles e depois neles como casal...  é muito verossímil essa relação, nada forçada… aquela afinidade que se tem com poucos. E o humor é realmente um ponto a favor desse anime… Otani balanceia bem a personalidade louca de Risa, com sua dose de agitação, quase como o “escada” de humor da dupla. 

Lovely Complex: humor e estranhezas usuais

O outro trunfo vem a partir do conflito das personagens: eles tem seu complexo de altura, e exibem uma personalidade que não se espera. Risa, por ter uma altura superior a das meninas, deveria se portar como uma dama para tentar conquistar um cara, mas ela não o faz. Já Otani se nega a ser frágil ou a ser aquilo o que os outros esperam, como quando decide fazer faculdade.

Prévia do beijo em Lovely Complex

Momento romântico 


Acho que é uma história divertida de se assistir, por vezes meio arrastada, mas com personagens carismáticos, músicas que compõem bem a cena, e um bom desfecho. É uma aula de como desenvolver personagens reais, com os quais podemos ter empatia, sem resultar em algo chato ou monótono, e que dá para conciliar bem com a comédia. Ah, e que podemos torcer por um casal m shoujo onde o cara não é "perfeito". Certamente vai ficar muito bem guardado nas minhas lembranças...


Lovely Complex: personagens amigos reunidos


Postado por Bruh



Paixão Cheia de Rancor (entre os protagonistas, e entre eu e a série)

Dentre os vários shoujos existentes, eu demorei muito para assistir "Hana Yori Dango", anime clássico famoso de 1996, oriundo do mangá de mesmo nome de Yoko Camio, mas eis que finalizei em uma tacada só e vim resenhar...




SINOPSE

A história clássica é meio clichê (relevem, pois é antiga e inspirou muitos outros mangás e sabe Deus mais o quê…): 

"Makino Tsukushi, personagem principal, é uma garota de uma família pobre que, apesar das dificuldades financeiras, conseguiu ser admitida em uma escola de pessoas extremamente ricas. Para que ela possa estudar, sua família passa, com orgulho, por muitas privações, na esperança de que a filha consiga conquistar um herdeiro milionário. Nessa escola, Eitoku Gakuen, os alunos esbanjam suas vantagens financeira, porém, os que mais se destacam são um famoso grupo de quatro rapazes chamado de Flower Four, os F4 (flores no sentido de preciosos), que são os herdeiros das mais poderosas famílias do Japão. Pelo poder financeiro dos seus nomes, eles ditam as regras na escola, passando por cima até mesmo dos professores e diretores. [...]

Fonte: Wikipedia


A ANÁLISE

Observação: Está repleto de spoilers do ANIME, pois não li o mangá inteiro. 





Eu não sei bem como falar desse anime. Ele me suscitou um monte de sensações… demorei muito para vê-lo, pois a história soava clichê, cafona e machista, mas ao ler várias comentários fervorosamente a favor, decidi procurar na net e conhecer melhor, até porque era antigo e isso explicaria o teor por vezes retrógrado. Aí vi tudo numa patada só... Fiquei muito curiosa e sentia prazer em acompanhar o enredo, mesmo que marcado por muito drama e bullying. Fiquei afeiçoada aos personagens. No entanto, não deixei de anotar mentalmente a montanha de problemas, muitas vezes na perspectiva romântica abusiva e babaca.

Tsukushi Makino se torna alvo do interesse de Tsukasa, o líder do F4, o estudante mais rico e mais violento de todos, enquanto ela desenvolve uma paixonite por Hanazawa Rui, o mais quieto, quase como o galã idealizado (porém, ao conhecê-lo essa sensação some). Tudo se dá quando a menina segue seu senso de justiça e enfrenta Tsukasa: em vez de olhar passivamente mais uma de suas suas agressões na escola, tece várias verdades na cara dele e dos amigos. Como punição, ele coloca a tarja vermelhe em seu armário, que significa que agora ela é inimiga do F4 e que toda a escola se voltará contra ela. Makino não se abate e chuta Tsukasa com toda força, declarando guerra a ele. A primeira garota que o machucou daquela maneira, depois de sua irmã mais velha, desperta o interesse e atração instantânea do líder violento, o que dá início ao envolvimento gradativo entre ela, o F4 e pessoas de alta sociedade, relações turbulentas permeadas por conflitos, brigas, humilhações, paixões, amores não correspondidos, aprendizados, e outras tensões.

Parece cômico, mas muitas situações de bullying são pesadas

Acho que algo que me prendeu e me fez aguentar os absurdos do anime foi a protagonista, muito superior a outras mocinhas de histórias mais novas: a menina repete todo o tempo que seu nome, “Tsukushi”, significa erva-daninha, o que define sua personalidade adaptável e resistente num ambiente hostil. Em uma escola de pessoas esnobes e cruéis (o bullying que ela e outros alunos sofrem é bem forte), a garota insiste bravamente. Seus pais esperam que ela arrume um marido rico na escola e por isso fazem de tudo para que a filha permaneça no local. Muito similar a Sra. Beneth, que espera que suas filhas tirem a família da pobreza, em “Orgulho e Preconceito”, enquanto Makino tem a mesma aura destemida e inabalável frente aos ricos, a mesma da heroína Elizabeth Beneth, no romance (até a cena em que elas precisam tocar piano frente aos ricos, para provarem serem aptas à alta sociedade, é similar).


Tsukushi Makino: ótima protagonista feminina de shoujo


Makino segura “Hana Yori Dango”, na minha concepção. Enquanto a personagem Kotoko de “Itazura na Kiss”, também é uma garota resistente, determinada e positiva, mas sempre com uma atitude inferior e que reconhece a própria mediocridade, e que nunca era capaz de se rebelar à altura dos ataques, o que, como expectadora, dava sensação de impotência, e em “Ao Haru no Hide”, Futaba é até bem destemida, mas quando se tratava de seu amor por Kou, ela se tornava frágil e não retrucava suficientemente bem as babaquices do amado, Makino não, ela simplesmente peitava todos os que que lhe pisavam, fossem mais ricos ou não, e não se deslumbrava com mundo luxuoso de Tsukasa. Não aceitou os móveis ou presentes caros nem vida de luxo (que nem a mocinha do “Cinquenta Tons de Cinza”, que no discurso repreende o Sr. Gray, mas ao fim fica com tudo).

Tsukasa e Makino


O interessante na transgressora Makino é como ela rebate: quando Tsukasa lhe estapeou (desserviço esse tipo de cena, falo mais abaixo), ela bateu de volta. Ela não deixou de peitá-lo ou respondê-lo. Ela não baixou a cabeça aos ricos e esnobes, nem mesmo a Tsukasa, que é o mais importante, com a sensação de derrotismo por ser pobre, pelo contrário: ela queria distância daquele mundo por não valorizar aquilo. 

O que despertou a atenção do orgulhoso e esnobe Mr. Darcy em relação a Elizabeth Beneth foi sua personalidade verdadeira e forte, mesmo à frente de alguém de classe alta. O mesmo vemos em Makino e Tsukasa. Isso não quer dizer que ela não se sentisse insegura ou frágil: tudo isso aconteceu, mas ela optava por seguir bravamente após secar as lágrimas. 

F4 do anime Hana Yori Dango

Eis que aí surge a parte incômoda: o personagem de Tsukasa Doumyouji, vilão e mocinho apaixonado. Ele é filho de uma família podre de rica e poderosa. Seus pais trabalham muito e moram em Nova York, então ele nunca tem contato com eles, salvo em seu aniversário. Sua vida é meio que planejada a viver naquele mesmo mundo de pessoas igualmente ricas, desde o jardim de infância, até a escolha de um casamento arranjado e administração dos negócios da família. Criado sem a proximidade dos pais e sem alguém para impôr limites, acostumou-se a fazer o que queria, tendo apenas a irmã mais velha para repreendê-lo e amá-lo. O comportamento esnobe, superior e violento de Tsukasa mostra muito do menino mimado e carente de boa base familiar, cercado de uma bajulação superficial, a qual ele não encontra em Makino, que assemelha muito de sua personalidade a de sua irmã (o que desperta seu interesse). No iníco da história sua impaciência e agressividade está ainda pior pela ausência da irmã, que saiu de casa para se casar, e Makino, apontando-lhe os defeitos e lhe batendo, tira-o da atmosfera de bajulação e falsidade que ele raramente adentrava e isso o cativa.

Tsukasa Doumyouji, mocinho e vilão

Tsukasa é o valentão do colégio. Dita quem sofre bullying, bate em quem esbarra nele, manda os outros se curvarem. Um típico babaca. Em outras cenas, ele faz coisas imperdoáveis: estapeia o rosto de Tsukushi umas duas ou três vezes, como eu disse anteriormente. Na primeira que me recordo, ainda no início, ele se arrepende assim que vê o rosto irado da garota, que o estapeia de volta. Numa outra, ele já era apaixonado por ela e o faz por raiva de sua declaração para que ele casasse com outra. Na mesma hora ele percebeu que havia feito uma burrada (a qual havia prometido não mais fazer), fitou a própria mão com remorso, mas o dilema acabou aí e tudo foi esquecido, o que me deixou muito chateada. Ainda estapeou uma outra garota também (do trio de ricas que pegava no pé de Makino). Recordo-me de sua irmã tê-lo repreendido e batido de volta alguma vez em que ele agrediu alguém. As agressões mútuas de tapa são usadas como recurso excessivo sem denotar a gravidade de seu uso.

Tsukasa possui comportamento violento
Noutra cena, ainda no início também, a mais problemática na minha opinião, Tsukasa beijou Makino à força, na escola, numa clara relação de poder e ódio. O momento é colocado como tenebroso (ele queria se vingar, estava se percebendo mais do que atraído por ela, e sentia ciúmes de Rui), porém a cena foi lembrada posteriormente com certo romantismo, pois, “apesar dele lhe segurar com força, seus lábios eram ternos”, Tsukushi pensou. Triste exemplo para uma garota que venha a sofrer assédio, o de compreender e perdoar quem toca nosso corpo sem consentimento. O papel de perdoar e ser paciente na mudança do homem certamente é uma função que as mulheres não precisam e apenas são responsáveis por péssimos relacionamentos.

Aí vem o contraponto: ao mesmo tempo, dono das cenas de assédio, depois que se descobriu apaixonado, Tsukasa não forçou Makino a fazer sexo com ele (como se aquele beijo forçado não fosse suficientemente asqueroso), embora tivessem várias chances e ele a amasse loucamente. Respeitar o corpo de uma mulher é obrigação mínima de um homem, mas após a cena do beijo forçado ver que Tsukasa nem de longe forçaria a transa (algo que até Rui fez com Shizuka, sua amada) foi aliviador.

Tsukasa Doumyouji: cenas violentas, cenas leves.

Tsukasa também se mostrou mais amável e sensível amorosamente, com um comportamento quase pueril, do que o restante dos F4. Ele também se pegou envergonhado com sua agressividade. Acreditou em Makino quando forjaram para parecer que ela havia transado com outro cara. Elogiava e reconhecia as qualidades da menina mesmo quando os outros a diminuíam por ser muito magra ou pobre (em uma cena enalteceu sua beleza em detrimento de Sakurako, que era elogiada pelos amigos). Foi capaz de quase ser espancado até a morte para salvar a garota. Apesar de se achar superior por conta do dinheiro, ao fim, compreendia que as coisas não eram bem assim. Foi o primeiro a ser amigo de Kazuya, novo rico, amigo de Makino. Também com uma fé amorosa inabalável, capaz de largar todo o dinheiro e valores superficiais para ficar com Makino. É como se fossem dois personagens diferentes, a sensação que fica para mim…

Beijo entre Tsukushi e Doumyouji


Diferente de Irie, em Itazura na Kiss, notamos logo que ele gosta de Makino, e a partir daí a defende (Irie ainda xinga Kotoko e a deprecia em algumas situações, só parando de menosprezá-la, se é que isso acontece, tempos depois de casados...). Infelizmente Tsukasa é bem possessivo… mas, ainda bem, Makino não fantasia ou romantiza isso, pelo contrário, todo esse poder dele a sufoca e ela descarrega isso nele! No anime, ela só retribuiu seu amor quando ele decidiu abrir mão do que o torna “superior” (o dinheiro, em sua concepção) para estar com ela. Depois, mesmo quando ela acabou tudo com ele, dizendo que seria um fardo demasiado enfrentar a desaprovação da família Doumyouji, o rapaz compreende e por ela, abre mão da relação também. Ou seja, existe aí um amadurecimento do personagem, que deixa de ser mimado e possessivo. Ele não conquista ela com seu dinheiro, móveis e viagens. 

Eu acho muito intrigante Tsukasa fazer o contraponto com Makino: é podre de rico, chefe da escola, arrogante, mas sem proximidade familiar ou carinho, e a medida em que entra em contato com o universo dela, percebe o quão ruim é o seu. Gosto dele não conquistar a garota por conta do dinheiro. Contudo, seu comportamento é violento e tirano em demasia, principalmente no início, quando permite um bullying violento em torno dela.

 Tsukasa poderia ser o anti-herói metido, mal-criado, despertando para as coisas que o dinheiro não compra com a ajuda de Makino, sem precisar bater no rosto de uma mulher ou beijá-la à força. Aí ele poderia ter feito a transição de pessoa superficial, criado em um ambiente pouco saudável, a alguém que aprende com os erros e percebe que o amor é muito maior que seu dinheiro e poder, como realmente aconteceu. Esse é meu desejo, minha idealização. 

Mas quem sou eu para dizer isso? O mundo de certo modo é machista, a sociedade japonesa é ainda mais tradicional e imbuída de valores conservadores que a brasileira (pelo menos nas mídias), e estamos falando de 1992, quando a obra iniciou. 

Hanazawa Rui salva Makino

Há de se destacar que a fibra de Makino de não se curvar aos que ligam muito para isso, a crítica ao mundo supérfluo e vazio dos milionários, é louvável. Ainda temos, Hanazawa Rui, que atua na outra ponta do triângulo amoroso, aparentemente seria a escolha ideal por ser mais dócil, no entanto nunca o vi como o príncipe que parecia. É mais tranquilo e amável que Tsukasa no início, mas em relação a afetividade é frio e indiferente. Ele apenas protegeu e ajudou Makino de início para agradar Shizuka, seu verdadeiro amor. Quase forçou Shizuka a transar com ele no navio (aff.. cenas assim em demasia), e só se envolveu com Makino ao voltar de Paris, pós término com Shizuka. No fundo, era um cara distante e a personagem entende que o idealizava. 



F4 e Makino: Prefiro "Garotos a Flores"


Bem… Hana Yori Dango me trouxe sensações múltiplas de raiva, alegria, obsessão… a trilha sonora é uma graça, adoro a abertura e as músicas clássicas dão um tom meio melancólico, sombrio, ou uma alegria-triste, juntando com o aspecto antigo do anime, fica bem nostálgico. Tive ódio de Tsukasa, e torci para ele ficar com Makino, tentando pensar que ele não era o mesmo personagem que lhe esbofeteou o rosto. Adoraria que em futuras adaptações (sei que tem muitos Doramas famosos) dessem uma repaginada nesse ponto… seria perfeito uma revisitada no anime. Eu recomendo a história para meninas que já sejam um pouco mais velhas, articuladas e maduras para assistir com senso crítico, nunca para uma garota de 12 anos que mal se descobriu mulher e já vai tender a idealizar relacionamentos possessivos. Dito isso, Hana Yori Dango pode te dar uns calafrios e alguma diversão. Ou nenhum dos dois.


Obs: Curte aqui a abertura, que é bem divertida.


Postado por Bruh

quinta-feira, março 30, 2017

Um ponto de vista feminino


Desde criança meus olhos brilhavam um pouco mais para os desenhos japoneses do que para os outros tipos de desenhos. Cresci assistindo muitos deles, e na puberdade, comecei a entender o que era anime (desenho japonês), mangá (quadrinho japonês), o direcionamento de público, e etc. De início via os de briga, que eram os mais comuns na TV brasileira, e apesar de serem protagonizados por homens, tinham histórias mais emocionantes do que os outros desenhos. Vez ou outra uma personagem feminina dava às caras como guerreira (10 x 0 para Disney e suas princesas), isso quando não era “Sailor Moon”, Sakura Card Captor ou algo assim… animes cheios de representações femininas. Eu me senti contemplada!


Sailor Moon e as Sailors: Um marco no protagonismo feminino

Certamente na adolescência foi a época na qual mais consumi animes. De luta, de magia, para meninas, para crianças, mais adultos, com mechas, suspense… ufa. No entanto, os afazeres da vida, a pouca facilidade em baixar e armazenar no computador, distanciaram-me um pouco desse universo. Anos depois, tornou-se muito fácil entrar em contato com as produções recentes ou mesmo aquelas clássicas, e as toneladas de remakes e continuações dos animes célebres me fizeram voltar com força total a assistir animes! Só que meu olhar mudou bastante...

É impossível dissociar minha visão de mundo e questionamentos ao me deparar com os enredos das histórias que assisto. Revisitar alguns animes é uma experiência louca, cheia de nostalgia, por vezes desapontamento ou até alívio. Eu tento sempre entender que o Japão é um país culturalmente diferente, que por vezes a história é mais antiga e ainda está imbuído de convenções tradicionais.. Entretanto, felizmente, existem exemplos bons em meio aos ruins e daí posso tecer uma crítica comparativa.

Samurai X ou Rurouni Kenshin: boas representações femininas, mas sempre em segundo plano

Que as produções voltadas para os garotos era machista, isso eu estava careca de saber. Com protagonismo masculino, mulheres objetificadas ou usadas como adorno, personagens femininas de relevância em pouca quantidade…. Mesmo em alguns dos animes que gosto, eu já notava isso (alguns isso é bem perceptível, outros nem tanto). Agora, algo que eu não tinha tanta ideia era no quão machista os mangás voltados ao público feminino eram! Para mim, shoujo era meio que certeza de ver representação feminina, tanto na autoria quanto nas personagens, a exemplo de Sailor Moon, com sua quantidade enorme de meninas de vários tipos, algumas que gostam de meninas, outras que se reconhecem como garoto, que querem um amor para a vida toda ou apenas trabalhar (ou os dois). 

Ao assistir novos animes adaptados de mangás shoujos (direcionados a meninas), ficou evidente o quão certos valores japoneses estão arraigados e perpetuados. Relacionamentos abusivos, romantização de agressão, pouco enfoque em como a violência é nociva, superestimação do relacionamento romântico, adequação à padrões tanto de beleza quanto comportamentais para se alcançar a felicidade… tudo isso é muito presente em shoujos – não vamos ignorar que em “Crepúsculos”, novelas brasileiras e outros enredos ocidentais isso também existe - , colocado com naturalidade e como mote do enredo.


Irie e Kotoko: desprezo, desprezo e migalhas de amor


Não sou, porém, aquela pessoa que deixa de assistir alguma produção com história interessante por conta desse tipo de problema. Prefiro continuar a assistir, com meu senso crítico. Tento descobrir o que posso tirar proveito dali. Uma das minhas reflexões está em torno do "macho alfa", o galã perfeito, o cara maravilhoso, poderoso, popular, lindo, inteligente, com uma sedução ligeiramente possessiva e violenta (Itazura na Kiss, Cinquenta Tons de Cinza, entre outros). Esse tipo é muito comum nos mocinhos de shoujo. É naturalizada essa superioridade do galã em relação a mocinha comum, sujeita a humilhações e dependência emocional resolvidas com beijos ou "eu te amo".  Um péssimo exemplo para uma menina que ainda está aprendendo a se aceitar.

Kenshin Humira ensina a ser um bom marido, sem ser perfeito

O irônico é que em alguns shounen lembro de personagens que seriam muito melhores maridos do que os de shoujo. A exemplo de Kenshin Himura de Rurouni Kenshin. Ele foi assassino à mando do governo, lutava por uma causa, mas sabia que aquilo era errado. Arrependeu-se, tornou-se uma pessoa pacata, madura, cozinha, lava, faz todos os afazeres domésticos, respeita o espaço da Kaoru, não é um cara que se usa do seu poder ou acredita que sua amada é sua posse. Não é perfeito, possui vários defeitos, porém mesmo no alto de suas habilidades extraordinárias, é mais realista que Usui de Kaichou Wa Maid-Sama.

Até mesmo o Inuyasha: imaturo, egoísta, amargo por conta de sua condição de meio-demônio (renegado por demônios e humanos), vivendo em uma Era antiga, com sua dose de machismo, e no eterno dilema romântico, por mais ciúmes que sentisse, por mais dúvidas que tivesse, esperava ver Kagome feliz, mesmo que não fosse perto dele e nunca forçou uma situação com a garota. Kagome é ciente dos defeitos de Inuyasha e os enfrenta de igual para igual. Ela não idealiza o ciúme ou os sentimentos confusos de Inuyasha, mas reconhece que ele a ama, a respeita, e preza por ela e por seus amigos. 

a imaturidade de Inuyasha 

Já nos shoujos são situações forçadas onde o garoto (na maioria das vezes popular) parece fazer um favor ao se relacionar com a garota (muitas vezes alguém comum ou até impopular), de maneira que “beijos roubados”, humilhações e abusos se tornam recurso para desenvolver e apimentar o romantismo. Itazura na Kiss é o exemplo mais recente em que vi algo assim, e é agoniante de tantos exemplos. Ao Haru Ride também tem algumas cenas que me deixaram de cabelo em pé, como quando mocinho questiona o motivo da mocinha se deixar estar à sós com ele – um homem – , pois isso pode culminar em algo ruim para ela (ser molestada, abusada). Não posso nem falar da experiência horrível de espiar "Diabolik Lovers" Quase traumatizante..

Enfim, aguardem nas minhas resenhas também abordar esse viés, sem deixar de apontar a parte positiva, claro! Sou mulher e quando criança, adolescente, queria muito ter visto mais personagens que me contemplassem e relacionamentos menos idealizados. Alguns animes advindos de mangás shoujos como “Lovely Complex”, “Peach Girl” e “Kimi ni Todoke”, são positivos nesse sentido e isso merece ser destacado! E óbvio, também falarei do tema quando se tratar de shounen, seinen, jounen, entre outros...

Obs: Se você é homem ou mulher, feminista ou não, vem trocar umas ideias aqui. Com respeito, todo mundo é bem vindo!



Postado por Bruh

quarta-feira, março 29, 2017

O Retorno


Isso mesmo. Você achou que a gente tinha abandonado o blog de vez foi quase isso, eis que após cinco anos (no meu caso foram uns seis), resolvemos voltar a postar por aqui! 

Tá, não acredito que alguém realmente ficou triste e esperando a gente voltar, mas enfim.. em tempos de remake, continuações de clássico (Dragon Ball, Sakura Card Captor, Sailor Moon, e muitos outros), nada mais justo que esse retorno. Mais adulta, mais crítica, porém, querendo sugerir coisas legais para vocês.

Tá afim de descobrir o olhar de uma pessoa qualquer (no caso a gente) sobre um anime que você pretende ver? Sem problemas.. vem com a gente! Muitos animes acumulados no gatilho... e outros antigos para serem reanalisados (uau..).

Ah, e se você não curtir uma resenha crítica, não ache que estamos querendo impor nossa opinião. Até entre nós os olhares são diferentes.. então, relaxa, toma um café e vai dando uma lidinha nos posts anteriores, enquanto aguarda os novos!


Postado por Bruh